O punhado de terra sob a torre

O punhado de terra sob a torre

O livro Dao De Jing trata no capítulo 64 sobre bons começos e pondera sobre o momento oportuno para atuarmos e termos bons resultados. Ele demonstra que grande parte dos nossos acertos e erros têm a ver com onde, quando e de que modo investimos nossa energia. No mundo manifestado, todos temos algo a fazer, algo a realizar, ainda que em um sentido elevado, não há nada a fazer, nada a ser realizado. Por ora, a questão é a qualidade da ação. Ao termo agir (為, wéi), é dada uma conotação de “ação forçada”, o que contrasta com o não agir (無為, wú wéi), que é a atitude adotada pelo sábio com bases na naturalidade (自然, zì rán). Ao longo de todo o livro, o wú wéi é citado, mas precisamente neste capítulo, há dois termos que merecem nossa atenção: 未 (wèi) e 末 ().

A diferença entre os dois ideogramas é mínima, mas significativa. Na parte de baixo, há o mesmo radical, 木 , que significa árvore. Em cima dessa árvore, há um traço. No ideograma 未 (wèi), o traço é curto e indica que a árvore ainda é um broto. Seu significado é “ainda não” ou algo que ainda está no começo. No segundo ideograma, 末 (), o traço de cima é mais longo e expressa a ideia de ramificações dessa árvore. Ele sugere a conclusão ou a fase final de um ciclo.


Dao De Jing – capítulo 64

Ainda calmo, é fácil de administrar;
Ainda não predito, é fácil de planejar;
Ainda frágil, é fácil de partir;
Ainda miúdo, é fácil de dissipar.

Atuar enquanto ainda não está consolidado,
Governar enquanto ainda não se tornou complexo.

Facilidade inicial

O capítulo começa indicando a fase inicial associada a 未 (wèi, ainda não). Tudo que está no início é mais fácil de ser administrado, basta considerarmos o oposto do mesmo. Se algo calmo pode se tornar agitado, talvez chegue ao ponto de ser incontrolável. Podemos pensar em uma criança, um animalzinho ou mesmo na nossa mente. Se pudermos pacificá-los, serão mais facilmente conduzidos. A Medicina Tradicional Chinesa, por exemplo, é especializada em colher informações sutis do paciente para identificar desequilíbrios na fase inicial, antes de tornarem-se crônicos e difíceis de tratar.

Uma árvore frondosa nasce de um fino broto;
Uma torre de nove andares ergue-se de um punhado de terra;
Uma jornada de mil milhas origina-se de um passo.

Origem dos fenômenos

Agora, o capítulo mostra a relação entre a fase final, pronta e concluída 末 (, finalizado), e a fase inicial 未 (wèi, ainda não). Nessa relação de causa e efeito, olhamos para o fruto e podemos enxergar a semente – olhamos para aquilo que está crescido e maturado e conseguimos identificar de onde ele veio. Igualmente, conseguimos olhar para algo no seu ponto de origem, a semente, e enxergar o seu potencial – como isso pode se desenvolver e até onde pode chegar. Damos então atenção especial à fundação, ao fortalecimento das bases e à nutrição das raízes para que em seu processo, desenvolva-se bem.

Ao agir forçadamente, fracassa-se;
Ao apegar, perde-se;
É por meio da não-ação que o sábio não fracassa;
Por meio do não-apego, ele não perde.

Tentativas em vão

Temos aqui o contraste entre aquilo que é forçado e aquilo que é natural. O sábio sempre prefere o caminho livre e espontâneo. Quando alguém dá o primeiro passo acertado e com convicção, toda a caminhada se desenrola naturalmente, sem desgastes. Por outro lado, se a sua iniciativa for equivocada e seguir por um longo caminho na direção errada, é muito mais trabalhoso tentar consertar o que deu errado.

O mesmo se dá com a tentativa inútil de nos agarrarmos às coisas. Nós nos esforçamos em manter aquilo que desejamos próximo de nós, dentro do nosso domínio. Mas o que é a posse senão uma ilusão? A atitude dominadora tem em si a energia do apego, cuja consequência é o afastamento daquilo que desejamos. O mecanismo do apego é este: quanto mais temos, mais queremos e quanto mais queremos, menos temos.

O homem comum não costuma concluir com êxito
aquilo que ele inicia.
Dedicar-se com zelo do começo ao fim
conduz ao não-fracasso das suas tarefas.

Atenção do começo ao fim

Aquele que leva a vida “de qualquer jeito” frequentemente gasta mais tempo e energia do que deveria. A ansiedade e a preocupação estão sempre afligindo quem age levianamente. A sugestão, obviamente, é praticar a atenção-plena no dia a dia. Há aqueles que se dedicam a algo no começo, enquanto estão empolgados, mas se descuidam ao longo do processo. Outros agem de modo imprudente no começo e quando chega o momento de concluir, fazem tudo às pressas. Os dois caminhos facilmente se convertem em fracasso.

Por isso, o desejo do sábio se dá no não-desejo;
Não enaltece os bens de difícil aquisição;
Aprende através do não-aprendizado;
Retorna quando todos excedem;
Incentiva a naturalidade dos 10.000 seres
evitando recorrer à ação forçada.

Colocar-se no início

O sábio sabe que o desejo tem um ponto sem volta e, assim, evita-o. Consegue extrair lições de vida onde os outros não percebem nada. Aprecia a simplicidade e a moderação, dando um recado através do seu modo de vida: a naturalidade é um caminho de vida sem complicações e sem tropeços.

Marco Moura

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*