A força oculta do fraco

A força oculta do fraco

Vamos considerar uma imagem com duas plantas. De um lado, uma grande árvore, imponente e bem desenvolvida. Do outro lado, um bambu fino, frágil e mole. Agora, qual representa maior força? A grande árvore ou este frágil e mole bambu? Rapidamente, associamos a força à grande árvore. Porém, a filosofia oriental valoriza muito a força contida neste fino, frágil e flexível bambu. Parece um grande paradoxo, não é? Como um bambu tão frágil pode ter mais força do que uma árvore grande e imponente? É sobre isso que vamos conversar.

Dao De Jing, cap. 76

A vida humana está para o suave e frágil
como a morte está para o rígido e duro
A vida vegetal está para o suave e frágil
como a morte está para o murcho e seco

Assim, aqueles que são duros e tensos aderem à morte
E os suaves e vulneráveis aderem à vida.

Desse modo, a robustez de um exército o leva à ruína,
A robustez de uma árvore a leva ao abate.
O poder do grande está no inferior
e a suavidade do frágil se faz superior.

Se nos parece difícil relacionar a suavidade ao poder, podemos pensar no ciclo da vida. Quando um ser vem ao mundo, seja uma pessoa, um animal ou uma planta, concordamos que esse novo ser tem energia em abundância, tem a vitalidade no seu máximo? À medida que vai crescendo e passa da meia idade, a vitalidade vai decaindo. À medida que esse ser se aproxima da morte, ele vai se tornando mais tenso e mais rígido.

Os seres, quando vêm a vida, estão plenos e abundantes de vitalidade. Uma característica notável é a flexibilidade – os músculos e tecidos são mais moles. Por outro lado, quando os seres se aproximam da morte, seus tendões estão rígidos – o corpo fica mais duro e menos flexível.

Pois então, em que momento da vida preferimos estar? No momento onde os seres são flexíveis e plenos de energia ou quando já estão endurecidos e com escassez de energia? Agora a lógica se inverteu, não é?

Agora podemos notar que a flexibilidade traz uma qualidade de força muito mais interessante do que a força rígida. Consideremos, por exemplo, que nas últimas semanas na cidade de São Paulo, houve muita chuva e muito vendaval. Após a chuva, não havia mato pelas ruas, mas sim, muitas árvores grandes caídas. A força dessas árvores não foi suficiente para combater a força do vento. Enquanto as árvores foram arrancadas pela ventania, os finos bambus apenas se curvaram diante da força do vento. Assim, o vento e a chuva não foram capazes de arrancá-los da terra.

Estamos falando da qualidade da força, o poder que advém da flexibilidade. A força aparente de uma grande árvore esconde uma fragilidade relacionada à sua rigidez, à sua secura. E a fragilidade de um ser frágil e mole esconde a força que advém da sua flexibilidade. É preferível ser suave e frágil a ser rígido e duro.

Mas por que a nossa mente associa a força a essas qualidades em seu máximo, como algo que está cheio até a borda?

Nós somos levados a adotar esse tipo de pensamento em nossa vida mundana. Pode ser que conquistemos resultados imediatos a partir da qualidade de força rígida. Existe um poder aparente nessa dureza. Podemos conquistar alguns resultados a partir desse poder, mas é um resultado que não se sustenta. O poder dessa força não se sustenta.

No ciclo da jovialidade para a velhice, tendo atingido o ápice, o que vem adiante é só declínio. Na nossa vida mundana, não queremos ficar para trás, não queremos ficar por baixo dos outros, não queremos ser vencidos. Os grandes e poderosos aproveitam esse medo e essa fragilidade humana para oferecer-lhe uma falsa segurança. Quanto mais pessoas aderem e se associam aos grandes e poderosos, mais “poder” eles adquirem. Enquanto essas pessoas estão associadas a eles, elas se submetem às suas imposições. Assim, ganham uma vantagem temporária.

Esses maiorais que escalam sobre as pessoas, ao invés de se tornarem mais fortes e poderosos, na verdade, se tornam mais dependentes. Porque eles se erguem às custas dessas pessoas que estão abaixo formando a sua base de sustento. Se a sua base desmoronar, se essas pessoas se revoltarem e o abandonarem, o seu poder irá romper.

Quando se ganha o apoio das pessoas através da autoridade, parece que existe um poder ao se ter muitas pessoas à disposição, mas no momento que o poderoso abrir uma brecha, essas pessoas o trairão. Porque elas não aderiram a ele espontaneamente, mas sim por interesse ou imposição. Assim, dentro desse poder, existe uma grande vulnerabilidade. E é lógico, quem está por cima vai tentar de todas as maneiras manipular as pessoas para continuar tendo a adesão delas.

Agora pense em uma outra situação. Uma pessoa que é flexível, cordial, simpática e que realmente se importa com os outros. Sua energia é outra! Ela conquista as pessoas através da sua virtude e, assim, as pessoas são gratas a ela. Ela conquista as pessoas porque elas sabem que são valorizadas. Diferentemente daquele poderoso que não encontra o apoio real das pessoas, a pessoa amável conquista o apoio espontâneo de muitas pessoas.

Essa é uma pessoa que vai a favor da lei da vida. No Dao De Jing, é dito que a pessoa benevolente é amparada pelo céu. A questão é ir a favor da vida e não a favor da morte. Chegar ao ápice é chegar ao fim da linha. As pessoas em geral querem estar no topo – querem ser os mais bem sucedidos, os mais inteligentes, os mais poderosos, os mais ricos… Querem atingir a completude, mas no fim das contas, isso é aderir a morte.

Quando algo está totalmente cheio, não cabe mais nada. Ser um expert “sabe-tudo” impede a possibilidade de aprender. Que triste é chegar ao fim da linha! A vida é um caminho, ou seja, uma via para ser caminhada. Chegando ao fim da linha, não existe mais caminho e, portanto, não existe mais vida. É preferível estar caminhando com constância, sempre aprendendo, sempre se desenvolvendo, sempre beneficiando os seres. Se há algo que nos impede de seguir nesse fluxo de constante aprendizado, de constante serviço à humanidade, é melhor reavaliarmos esse caminho. O que não vai a favor da vida nos leva à morte.

No caminho da vida, você prefere ser a grande árvore, robusta e rígida, ou um fino bambu, mole e flexível? Grande parte das doenças que nos acomete está relacionada a uma falta de cuidado com as nossas raízes, uma falta de abastecimento da energia vital. Enquanto almejamos o yang, esquecemos do yin. A vida vai do yin para o yang. Quando a vida está indo do yang para o yin, isso significa a vida se aproximando ao fim.

Então o que queremos é o movimento do yin para o yang, a favor da vida. O excesso de atividades nos desgasta, rouba o nosso combustível de vida, a nossa energia vital. As nossas atitudes impulsivas e sem moderação nos levam a um lugar onde a energia mental fica agitada ou onde a energia vai e não consegue retornar. A energia que não circula deixa o nosso sangue denso e viscoso, um ambiente interno propenso para enfermidades.

Diante dos riscos à nossa integridade física e mental, podemos querer nos blindar através de uma rígida armadura que nos protegeria das ameaças. Neste capítulo, é dito que a robustez de um exército o leva a ruína. Quanto mais forte a armadura, mais pesada ela será e reduzirá a nossa possibilidade de movimentação. Ficaremos menos flexíveis e menos ágeis, portanto, presas mais fáceis dos nossos inimigos.

Quando somos externamente rígidos, quando explodimos com as pessoas para mostrar a nossa força, invariavelmente, criamos uma situação interna desfavorável para nossa saúde. Perder o equilíbrio e a harmonia é um grande mal, pior do que males externos. Atitudes tempestuosas escondem uma fragilidade emocional muito grande. Atitudes flexíveis como a tolerância e a compaixão demonstram suavidade e flexibilidade para lidar com os desafios preservando a nossa harmonia interna. Essa é a maior das forças.

Se pudermos combinar as nossas atitudes do dia a dia, o nosso estilo de vida e os nossos relacionamentos a essas qualidades que são suaves sim, assim como a vida é frágil, isso nos conduzirá a um movimento a favor da vida, da prosperidade e do verdadeiro poder.

Marco Moura

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