Conhecer MENOS para saber MAIS?

Conhecer MENOS para saber MAIS?

O Dao De Jing (Tao Te Ching) revela a manifestação do Dao, descrevendo o movimento do Wu Ji (vazio primordial) para o Tai Chi (unidade perfeita), para a dupla Yin e Yang, para os três aspectos da manifestação, até as 10.000 coisas que compõem o nosso universo. Este processo, porém, é divisivo, afastando-nos de nossa origem à medida que nos movemos para formas mais complexas. No capítulo 47, o texto enfatiza que quanto mais nos afastamos, menos clareza temos. Tanto o Tao Te Ching quanto o I Ching destacam o retorno à fonte original como uma solução para reconectar-se à unidade perdida.

DAO DE JING, capítulo 47

Sem sair pela porta, é possível conhecer o que há sob o Céu.
Sem espiar pela janela, é possível reconhecer o caminho do Céu.
Quanto mais longe se vai, menos se sabe.
Por isso, o sábio sabe sem percorrer,
reconhece sem olhar,
realiza sem agir.

O grande saber é ilustrado pelo sábio que, sem sair pela porta, conhece o que está sob o Céu e, sem espiar pela janela, reconhece o caminho do Céu. A ideia central é que, ao ir longe demais, perdemos a compreensão. O texto sugere que, ao buscar conhecimento de fontes externas, exteriorizamo-nos incessantemente em um mundo vasto demais para ser totalmente compreendido. Se fizermos o movimento contrário, encontraremos as leis que formam os fenômenos, sem necessidade de nos exteriorizarmos em direção às 10.000 coisas. Encontraremos Céu e Terra dentro de nós mesmos.

Na prática do Tai Chi Pai Lin, esse simbolismo está bem frisado ao início da forma. Quando os pés estão unidos e o corpo em repouso, o olhar está recolhido e a mente não se envolve com o mundo lá fora. Essa é a correspondência com o Wu Ji, que é o vazio primordial, sem abrigar nada na mente. Nessa interiorização, é como se as coisas não existissem ainda. No momento em que se abre o passo, sedimenta-se e forma-se o abraço do universo. Nessa postura, não se pende nem para frente, nem para trás, nem para os lados. Tudo está totalmente organizado. O alto está bem relacionado com o baixo, direita bem relacionada com a esquerda. Corresponde ao Tai Chi: Yin e Yang em perfeito equilíbrio. Então do Wu Ji, que é o vazio, surgiu o UM que é o Tai Chi e depois o Yin Yang. Na forma, busca-se o Céu (Yang) e a Terra (Yin), para então recolhermos para nós mesmos. Céu, Terra e Ser-Humano. Conforme a palma busca externamente o Céu, reconhecemos que internamente, também há um Céu. O Céu é a mente/espírito relacionada com o dantian superior, com a região do Ling Tai, que é um vazio no centro da cabeça, no espaço do terceiro ventrículo. Depois, se busca a Terra. Externamente, as palmas voltam-se para a Terra, mas internamente conecta-se com a sola dos pés e o yinqiao, no períneo, que é a comunicação com o Yin da Terra, é o aterramento. Após isso, recolhemos para o ser humano como símbolo do equilíbrio, sabendo que temos o Céu e a Terra internamente.

Do três, formam-se as 10.000 coisas. Na forma de Tai Chi Chuan, é quando o Tai Chi se manifesta. Começa um movimento cíclico, como as quatro estações, como todo o movimento cíclico do universo. Na respiração, temos a insipiração e a expiração; nos batimentos cardíacos, temos a sístole e a diástole. Esse mecanismo não é nada diferente do que acontece do lado de fora. Com atenção, podemos ver essa correspondência do interior com o exterior. Tal como existe o Yin Yang no Céu e Terra, temos o dia e a noite dentro de nós. Temos a atividade e repouso, a respiração, o batimento cardíaco e o ritmo de cada um dos órgãos – todos em correspondência com esse ciclo, com essa pulsação do Universo.

Ao simplificar a vida e depender menos do externo, podemos buscar equilíbrio e autorrealização. Reconhecer as leis universais dentro de nós, aplicando os princípios do Tao Te Ching na prática do Tai Chi Chuan, permite-nos encontrar um sentido mais profundo, integrando-nos ao vasto tecido do Universo. O caminho para a autorrealização reside na compreensão de que dentro e fora são, fundamentalmente, um só.

Marco Moura

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