Taijiquan e o movimento funcional

O Taijiquan, em sua essência, representa uma profunda jornada de refinamento do movimento funcional – a maneira como nos movemos no nosso dia a dia para realizar tarefas com propósito.

O Que é Movimento Funcional?

Movimento funcional é todo movimento que possui uma intenção, desde as ações mais básicas até as mais complexas. Caminhar, levantar um objeto, alcançar algo, tudo isso envolve uma função. Diferente de movimentos isolados, a funcionalidade reside na integração de diversos micro-movimentos que o corpo executa de forma coordenada e eficiente.

A Jornada em Quatro Fases:

Podemos visualizar o aprendizado do movimento funcional no Taijiquan como um ciclo dinâmico de quatro fases, análogo às quatro estações e profundamente conectado à filosofia do Taiji: Tai Yin, Shao Yang, Tai Yang e Shao Yin.

  • A Fase Tai Yin (Inverno): A Disfuncionalidade Disfuncional. Assim como o inverno representa o período de menor energia e potencial adormecido, esta fase marca o ponto de partida onde a funcionalidade é mínima e os padrões de movimento são ineficientes e descoordenados. Aqui, o foco inicial é o “Solve” – buscar a soltura e o relaxamento para identificar e liberar padrões de tensão.
  • A Fase Shao Yang (Primavera): A Disfuncionalidade Funcional. Com o despertar da primavera, surge a capacidade de realizar tarefas, mesmo que com adaptações e imperfeições. No contexto do Taijiquan, o “Coagula” começa a entrar em ação, com a reconstrução de movimentos básicos, mesmo que ainda não de forma ideal.
  • A Fase Tai Yang (Verão): A Funcionalidade Funcional. O auge do verão simboliza a plena funcionalidade. Os movimentos são executados com propósito claro, eficiência, equilíbrio e fluidez. Nesta fase, o movimento emana do centro do corpo (o Dantian) e se expande em espiral para as extremidades, representando a integração e a eficiência.
  • A Fase Shao Yin (Outono): A Funcionalidade Disfuncional. Assim como o outono representa uma transição após o pico do verão, esta fase pode indicar uma funcionalidade presente, mas talvez com alguma perda de otimização ou a persistência de padrões menos ideais. Pode representar o praticante que, apesar de ter desenvolvido habilidades, ainda não internalizou completamente os princípios.

O Movimento do Centro e o Processo “Solve et Coagula”:

Um aspecto fundamental da funcionalidade proposta pelo Taijiquan é a forma como o movimento é gerado: a partir do centro do corpo (o Dantian) e se expandindo em espiral para as extremidades. Essa mecânica corporal integra o corpo como um todo de maneira coordenada, otimizando a transferência de força e promovendo a eficiência em cada movimento.

O aprendizado motor no Taijiquan pode ser visto como um processo de “Solve et Coagula“. Inicialmente, precisamos nos libertar (‘Solve’) de padrões de movimento disfuncionais e tensões desnecessárias através do relaxamento e da soltura. Em seguida, reconstruímos (‘Coagula’) o movimento a partir de uma base sólida e um eixo corporal corretamente posicionado, desenvolvendo uma nova forma de funcionalidade que é mais alinhada, eficiente e saudável.

A Dança entre Gang (剛) e Rou (柔):

Essa jornada de desconstrução e reconstrução, o ‘Solve et Coagula’, encontra um paralelo interessante nos princípios fundamentais do Taijiquan: Gang (剛), que representa a força, a estrutura e a firmeza, e Rou (柔), que simboliza a suavidade, a flexibilidade e a capacidade de ceder.

No processo de ‘Solve’, buscamos a qualidade do ‘Rou’, relaxando as tensões e soltando os padrões de movimento disfuncionais. No entanto, se essa dissolução for excessiva, corremos o risco de colapsar, perdendo a estrutura necessária. Já na fase de ‘Coagula’, onde reconstruímos o movimento a partir do centro, precisamos cultivar o ‘Gang’ para estabelecer uma base sólida e um alinhamento correto. Contudo, um excesso de rigidez (‘Gang’ sem ‘Rou’) pode levar à tensão e à falta de fluidez, tornando o movimento mecânico e propenso a rupturas.

Assim, o aprendizado do Taijiquan é uma busca constante pelo equilíbrio entre o ‘Solve’ e o ‘Coagula’, entre o ‘Rou’ e o ‘Gang’. É nessa dança entre a suavidade e a firmeza que encontramos a verdadeira funcionalidade e a potência do movimento.

Assim, o Taijiquan oferece uma jornada transformadora para refinar a nossa capacidade de nos movermos com propósito, eficiência e saúde. Ao compreendermos as quatro fases do aprendizado, a importância do movimento que emana do centro, o processo de “Solve et Coagula” e a busca pelo equilíbrio entre “Gang” e “Rou”, podemos desbloquear um potencial de movimento mais inteligente e integrado em nossas vidas.

Resumo:

  • Movimento funcional é todo movimento com propósito e integração corporal.
  • O aprendizado do movimento funcional no Taijiquan pode ser visualizado em quatro fases: Tai Yin (Disfuncionalidade Disfuncional), Shao Yang (Disfuncionalidade Funcional), Tai Yang (Funcionalidade Funcional) e Shao Yin (Funcionalidade Disfuncional).
  • O movimento no Taijiquan se inicia no centro do corpo (Dantian) e se expande em espiral para as extremidades.
  • O processo de aprendizado envolve “Solve et Coagula“: liberar padrões antigos e reconstruir o movimento a partir de uma base correta.
  • Os princípios de Gang (força/estrutura) e Rou (suavidade/flexibilidade) são essenciais e precisam estar em equilíbrio no aprendizado.
  • O Taijiquan é uma jornada para desenvolver um movimento mais inteligente, eficiente e saudável.

Marco Moura