Superstição sensorial

Superstição sensorial

“O poder das influências externas sobre você é diretamente proporcional à abertura que você dá a elas.”

É raro encontrar pessoas que não tenham nenhum tipo de superstição ou que ao menos não fiquem cabreiras quando acontece algo do tipo: quebrar o espelho, passar embaixo da escada, deixar o chinelo virado para cima, abrir guarda-chuva dentro de casa, etc. Alguns não admitem, mas dizem “não acredito, mas também não dou chances para o azar”. Para driblar o azar e atrair a sorte, muitos recorrem a amuletos, simpatias e outros. Sorte e azar, nesse contexto, têm relação com crendices e com a admissão de que há forças desconhecidas operando sobre nós.

Por definição, superstição é a crença sem justificativa plausível de que certos fenômenos têm poder sobre as pessoas. A superstição parece se apoiar em meios justificáveis, como a lei de causa e efeito, porém, sem qualquer comprovação além da crença. Os supersticiosos mantém convicções firmes nesse fenômeno validadas pela sua fé religiosa, pelo sugestionamento mental de uma pessoa confiável ou grupo, por suas interpretações de experiências prévias, etc. A natureza da sua crença pode ser consciente ou subconsciente, coletiva ou individual, aprendida ou deduzida. Necessariamente, a superstição é fruto do condicionamento e é validada por fontes não confiáveis. O que seriam, afinal, fontes confiáveis? Confiáveis para quem?

O método empírico da ciência

De um lado, os céticos afirmam que é preciso ver para crer, do outro, os supersticiosos creem sem ver. Enquanto os céticos dependem de dados empíricos, ou seja, fornecidos pelos órgãos dos sentidos e processados pela análise lógica, os místicos dependem de dados metafísicos, validados pela sua estrutura de crenças. Tanto em um caso como no outro, o fundamento é a crença particular ou premissa cuja origem não é absolutamente comprovável – dentro dos limites da comprovação, é a hipótese mais plausível e, portanto, aceita como verdadeira. Os dados não são absolutos, mas corrompidos.

A ciência se utiliza de experimentos para haver a comprovação de uma hipótese. O cientista observa e analisa os dados colhidos pelo método, de modo que ele é o sujeito que interpreta os dados. A sua lógica, a sua linguagem e a sua conclusão estão impregnados de conceitos. O olhar do cientista influencia o resultado, portanto, não há uma observação pura e imparcial. Nós somos o aparelho observatório e o aparelho processador.

Em uma observação sensorial, dependemos de três referenciais para o contato:
Observador: sujeito que faz uso dos órgãos dos sentidos – visão, audição, olfato, paladar ou tato.
Observado: objeto ou fenômeno perceptível que fornece informações visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis ou mentais.
Consciência: contexto que permite a observação, de onde parte a intenção que liga o observador ao observado e que atribui um significado mental ao objeto observado.

Sem a consciência, o aparelho observador não seria observador e estaria desconectado do observado, que não seria observado. No momento que existe a intenção da observação, simultaneamente surgem o observador e o observado em um contexto comum, mas mantidos separados de modo que o observador não influencie o observado. De forma direta, a ciência minimiza ao máximo essa influência, mas de forma indireta, isso é impossível, pois o observador e o observado estão em interação contínua. A consciência dá luz a ambos quando manifesta a intenção. O que ocorre no campo da intenção determina os fenômenos “observador” e “observado”. Nós vemos o que decidimos ver.

Imparcialidade equivocada

Achar que os dados empíricos são neutros é desconsiderar todos os fatores que possibilitam a obtenção desses dados. O cético é tão supersticioso quanto o místico. Ambos são dependentes de meios cognoscíveis – um por meio dos cinco sentidos, outro por meio da concepção mental. A mente está presente de qualquer forma na análise dessas informações apresentando-nos os dados que escolhemos observar.

Uma vez que as nossas crenças definem o nosso olhar, o que dizer das crenças coletivas passadas de geração em geração, as crenças reforçadas pelos meios de comunicação, pelas escolas, pela sociedade em geral. Antes de termos a chance de olhar pelos nossos próprios olhos, o meio externo já direciona o nosso olhar. A estrutura de crenças já está pronta e nós seguimos perpetuando-a. Em um sistema que cria supersticiosos, quem está dentro não consegue enxergar.

Dentro da nossa humilde e limitada condição humana, o mais sensato é reconhecer que, por mais que tentemos ser imparciais, certas premissas tidas como inquestionáveis nós simplesmente não temos como comprovar. A “verdade” não é nada mais do que a hipótese mais convincente que encontramos.

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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