Superando as aparências (animitta – porta 2)

Antes de adentrarmos na segunda porta da liberação, a primeira porta (sunyata) deve estar bem elucidada. Como utilizar na prática a visão do vazio, uma percepção que vai além da percepção comum? A compreensão da inconsistência dos fenômenos é a chave para um grande portal, mas a chave não pode abrir nada se não a colocarmos na fechadura. Devemos nos acostumar no dia-a-dia a aplicar o olhar do sunyata – questionar as nossas percepções, duvidar dos obstáculos que vemos diante de nós, dos nossos limites internos e de quem achamos que somos. É preciso iniciativa, disposição e coragem para se sustentar um novo olhar.

O mestre Thich Nhat Hanh apresentou nesta semana uma nova tradução do Sutra do Coração, que é uma das principais obras que tratam do sunyata. Nessa versão, o título prajnaparamita é traduzido como “O Insight que Nos Leva à Outra Margem”. Nas passagens do sutra onde era dito “não há os cinco skandhas (o eu psicológico), nem os órgãos dos sentidos, nem os objetos de contato, nem as consciências dos sentidos”, ele substituiu o “não há” por “não são entidades individuais separadas”. Evitando o perigo de se achar que todos os fenômenos são inexistentes (da forma dualista que nós encaramos o vazio em oposição à existência), ao enfatizar que não são entidades separadas, ele relembra da lei de causa e efeito onde todos os fenômenos são interdependentes de causas e condições. Ou seja, o que não existe é a singularidade que atribuímos aos fenômenos ao dividirmos o efeito da sua causa. A aparência dos fenômenos apreendida através dos nossos sentidos é que é falsa, pois quando nós os observamos parcialmente, há exclusão e perda da totalidade.

A segunda porta da liberação é a ausência de sinais. Enquanto a primeira porta (sunyata) tratava da essência dos fenômenos, a segunda (animitta) trata da sua aparência, imagem ou sinal. Podemos ter uma ideia do que seria a imagem através de uma passagem de Krisnhamurti em “A Luz Que Não Se Apaga”:

img_flowersSempre olhamos as coisas parcialmente. Em primeiro lugar, porque somos desatentos e, em segundo lugar, porque olhamos as coisas com preconceitos, com imagens verbais e psicológicas daquilo que vemos. Por isso, nunca vemos coisa alguma completamente. Mesmo observar a natureza objetivamente é difícil. Olhar uma flor sem imagem alguma, sem nenhum conhecimento de botânica – observá-la simplesmente – é bem difícil, porque nossa mente está vagueando desinteressada. E, mesmo quando interessada, ela olha a flor com certas apreciações e descrições verbais que parecem dar ao observador a impressão de que realmente a olhou. Olhar com intenção não é olhar. Assim, nunca olhamos realmente a flor. Olhamo-na através da imagem.

Os cinco skandhas (agregados), ou seja, os componentes psicológicos que sustentam a imagem do “eu”, é o sensor que capta as informações através dos órgãos dos sentidos, processa essas informações fazendo correlações com as informações já coletadas em sua consciência e define a imagem final para essa experiência. Em outras palavras, nós deixamos de olhar para o fenômeno em si para enxergarmos as imagens mentais que projetamos sobre ele. De acordo com o nosso estado mental i.e., emocional, nós nos relacionamos com essas informações de modos distintos. A imagem que projetamos é diferente. Como diz o sutra, aquilo que observamos não é uma entidade individual separada. Separada de que? Da minha observação. É um olhar contaminado. Krishnamurti continua:

Observar a si mesmo sem a imagem – que é o passado, que é experiência e conhecimentos acumulados – é uma coisa que muito raramente acontece. Temos uma imagem acerca de nós mesmos. Pensamos que devíamos ser isto e não aquilo. Formamos uma idéia prévia de nós mesmos e através dela nos olhamos. Pensamos que somos nobres ou ignóbeis, e vermos o que realmente somos nos deprime ou assusta. Não podemos, pois, olhar a nós mesmos; e quando o fazemos, essa observação é parcial, e o que é parcial ou incompleto não traz compreensão. Só quando somos capazes de olhar-nos totalmente, existe a possibilidade de nos livrarmos daquilo que observamos. Nossa percepção não se verifica apenas com os olhos, com os sentidos, mas também com a mente e, é óbvio, nossa mente está sobremodo condicionada. Por conseguinte, a percepção intelectual é apenas percepção parcial e, todavia, o perceber com o intelecto parece satisfazer à maioria de nós, e pensamos compreender. Uma compreensão fragmentária é a coisa mais perigosa e destrutiva que há. É isso, exatamente, o que está sucedendo no mundo inteiro. O político, o sacerdote, o homem de negócios, o técnico, o próprio artista – todos só vêem parcialmente. Por conseguinte, são eles realmente indivíduos destrutivos. Como representam um papel muito importante no mundo, a sua percepção parcial se torna a norma e nesta armadilha fica o homem aprisionado. Cada um de nós é, ao mesmo tempo, o sacerdote, o político, o negociante, o artista, e muitas outras entidades fragmentárias. E cada um de nós é também o campo de batalha de todas essas opiniões e julgamentos antagônicos.

O nosso olhar é reducionista. Nós procuramos compreender aquilo que observamos através da fragmentação, mas desse modo, só observamos os sinais. No budismo, o mestre Thay fala de três pares de sinais: universal e particular, unidade e diversidade, formação e desintegração. O primeiro par refere-se ao fenômeno em si, observando-se os aspectos do fenômeno como um todo (universal), no contexto por exemplo do indivíduo como representante da nacionalidade brasileira, da raça humana, dos seres terrenos, etc; e os aspectos particulares do indivíduo sem esses rótulos. Por exemplo, um político pode ser encarado como “petista” pelo sinal universal e, aprofundando o olhar, vemos suas características políticas singulares pelo sinal particular. O segundo par contextualiza o indivíduo com o meio, sendo que a unidade trata das características individuais e a diversidade identifica qualidades ao comparar o indivíduo com os demais. Por exemplo, na análise do político, observamos seu caráter, sua expressão e valores como sinais individuais. O terceiro par refere-se à ação do tempo sobre todos os fenômenos que seguem um ciclo ininterrupto. Convencionalmente, dividimos o tempo em fases, como o indivíduo bebê, jovem, adulto e velho. Não vemos a interdependência implícita nessas divisões, pois no momento que nasce, o recém-nascido já está envelhecendo e, durante a velhice, o ancião ainda carrega os genes que promovem a formação de novas células. O bebê está no ancião e vice-versa.

Esses sinais observáveis surgem das divisões que vamos criando. Não podemos dizer que são nulos, pois nós os utilizamos para nos orientar no meio sensorial. O problema é nos apegarmos a eles. Um discípulo zen disse ao seu mestre que havia compreendido o vazio, que o seu corpo é vazio assim como tudo no universo. Ao que o mestre se aproximou e apertou com força o nariz do discípulo, que deu um belo grito. “Você não disse que o seu nariz não existia?”, provocou o mestre. Não é que não exista, é que não é uma entidade individual separada. A nossa mente é que cria a divisão.

O Sutra do Diamante aponta quatro imagens que criamos através da divisão e às quais nos apegamos: o eu, a pessoa, o ser vivente e o período de vida. Para sustentarmos o eu, nós o separamos do outro e, com isso, geramos o egoísmo. Para sustentarmos a condição “pessoa”, separamos o ser humano dos outros seres e exploramos os animais causando sofrimento a eles. Identificando-nos com os seres viventes, excluímos o que não é vivo e exploramos o meio ambiente, consumindo os recursos do planeta, poluindo o ar e as águas. Identificando-nos com o período de vida, nós criamos uma imagem artificial da morte e passamos a vida temendo-a.

Nesse sutra, é dito: “tudo o que tem marca é ilusório”. A divisão leva ao conflito. Portanto, é preciso que saibamos lidar com o mundo das aparências – não dizendo que a aparência não exista, mas reconhecendo que nós a criamos. A aparência diz muito mais sobre nós mesmos do que daquilo que tentamos observar. Saibamos que há muito mais por trás do que aquilo que podemos ver. Com essa atitude, nossa postura se torna mais humilde, flexível e compreensível. Deixamos de emitir opiniões tendenciosas para reconhecer que cada um sustenta um mundo oculto onde aquilo que podemos ver é mínimo e, ainda, o nosso olhar está impregnado de impressões equivocadas. Em alguns momentos, temos pequenos insights de compreensão onde a divisão é deixada de lado, o nosso olhar se torna mais claro e o nosso coração mais acolhedor. Procuremos cultivar esse estado, mesmo que o mundo das aparências não reflita a nossa disposição interior. À medida que as sementes do amor e da lucidez forem plantadas, aos poucos sobreporão as sementes da divisão e da aparência, que há tanto tempo temos plantado.

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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