Optando pela Não Reatividade (parte 3 – libertando-se)

Existe um conto interessante sobre um espadachim arrogante que desafiava outros guerreiros e vencia através da provocação. Ele insultava os seus oponentes que, tomados pela raiva, atacavam-no imprudentemente. Aproveitando o descuido do adversário, ele desferia um golpe certeiro e fatal. Certa vez, foi desafiar um sábio samurai. No palco da luta, começou a ofender o samurai e tentou de todas as formas desonrá-lo. O samurai permanecia sereno, sem nem franzir a testa. Vendo que era inútil insultá-lo, o desafiante foi embora frustrado. Os discípulos do samurai foram até seu mestre e perguntaram-no: como o senhor pôde aguentar os insultos sem fazer nada? Como pôde aceitar tamanha desonra? O samurai respondeu: não há ninguém que possa desonrar-me a não ser eu mesmo. Responda: se alguém lhe oferece um presente e você não aceita, com quem fica o presente? A resposta era óbvia: com quem ofereceu o presente. O mestre concluiu: desse modo, se alguém lhe oferece insultos e você não os aceita, eles continuam com quem os trouxe.

Quantas vezes nós aceitamos os presentes externos como ofensas? E quantas vezes nós mesmos buscamos esses presentes sem terem sido oferecidos? Quem se identifica com o insulto é atingido por ele. O ego toma conta de nossas mentes levando a uma reação impulsiva. O samurai sabia que o perigo não vem de fora, mas da reatividade interna. Veja o que fez: ele não se identificou com o insulto e, portanto, pôde escolher a não reatividade. Ele não se colocou na posição de vítima diante dos insultos e também não condenou o insultante por provocá-lo, caso contrário, estaria borbulhando de raiva. Ao contrário, ele assumiu a responsabilidade por seus pensamentos e atos. Com uma atitude sem ego, ele não deu condições para que a semente da reatividade crescesse em seu coração-mente.

A situação de conflito, como qualquer fenômeno, origina-se de causas e condições.
1) Causa: o evento que inicia a problemática. Trata-se do sujeito ou da situação que identificamos como “agressor”.
2) Condição: pré-disposição de receber negativamente o evento como uma ofensa, ameaça, invasão, etc. É a susceptibilidade mental à negatividade. Criamos uma situação idealizada na nossa mente – uma paisagem – e queremos que o mundo satisfaça esse nosso desejo. Enquanto nos apoiamos psicologicamente nessa expectativa, o ego revela uma insegurança em relação à sua autoimagem, autoafirmação, ambição, segurança, necessidade de domínio territorial, etc.
3) Efeito: sentir-se atingido e reagir.

Podemos investigar esses fatores nas situações cotidianas e questionar qual é a causa, a condição e o efeito. A causa corresponde à situação em si, a condição é mostrada pela nossa reação interna e o efeito corresponde à nossa reação final, que pode ser interiorizada ou exteriorizada. Por exemplo: durante a meditação, alguém toca a campainha e a pessoa tem que interromper a sua prática para atender a porta. Temos:
1) Causa (a situação em si): ter que interromper a meditação para atender a porta, sendo que era a função de outra pessoa.
2) Condição (vulnerabilidade interna – ideia rígida): desejo de permanecer em paz, sem importuno, e que os outros habitantes da casa façam a sua parte.
3) Efeito (como canalizei): culpar mentalmente o responsável pela situação, ficar com raiva, ir atender a campainha com má vontade e sentir culpa pela emoção “baixa”.

A atitude reativa perpetua o ciclo. A intenção aqui não é descobrir a atitude mais adequada diante da situação, mas sim buscar uma resposta não reativa e libertar-se do ciclo condicionado. Por que criar dependência de situações fantasiosas ao invés de aceitar o presente com flexibilidade? Em vez de darmos respostas condicionadas, temos a opção de escolher uma saída criativa e de usar o evento para a transformação interior. A vida nos dá esse tipo de chances muitas vezes, não? Que tal aproveitarmos?

Desde a hora que acordamos, temos diante de nós a possibilidade de escolhermos o condicionamento ou a liberdade. O condicionamento nos leva ao caminho da reatividade e da insatisfação. A liberdade nos torna vivos. Para isso, não vá fazendo as coisas de supetão – use o poder da escolha. Temos um pequeno tempo entre o acontecimento de um evento e a nossa resposta a ele. O segredo está em fazer a escolha logo que o evento acontece. Veja as duas alternativas:

Toda vez que existe a possibilidade de reagir a uma circunstância e você opta por encará-la como um efeito cuja causa está oculta, você se abre para a luz. Você se torna a causa, não o efeito, e encontra novas maneiras de agir. Isso o conduz para fora do ciclo condicionado, para a liberdade.

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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