Optando pela Não Reatividade (parte 2 – a origem)

Ao buscarmos uma atitude não reativa, encontramos duas estratégias básicas para contornarmos um conflito:
1) Passiva: adaptarmos o nosso espaço. Seria o caso de reduzirmos o nosso território ou de cedermos e moldá-lo à imposição externa para evitarmos conflito.
2) Ativa: comunicação e bom senso. Nesse caso, entraríamos em um consenso com o agente externo por meio do respeito mútuo e pela argumentação lógica do que seria um convívio pacífico.

Em ambos os casos, estamos condicionados ao problema: há o meu espaço e há um invasor. Mesmo cedendo, estamos reagindo mentalmente, pois não gostamos da situação. Estamos reafirmando a existência de um agressor externo. Em outras palavras, estamos tentando evitar um conflito externo após o conflito interno já ter ocorrido. No primeiro caso, buscamos uma solução tolerante e passiva. A lógica seria: moldando o nosso espaço, é possível a conciliação. Como consequência, o agente externo se aproveitaria da nossa passividade e invadiria cada vez mais, limitando-nos totalmente. No segundo caso, buscamos uma resolução inteligente via argumentação lógica. Mas os próprios argumentos lógicos têm bases em ideologias ou conceitos subjetivos sobre o que seria respeito e sobre até onde vai o direito de ambos.

Há uma terceira saída: ao invés de ficarmos presos ao problema de estarmos sendo agredidos, deveríamos questionar essa lógica. Onde está a raiz desse conflito? No ego. Em nossas conversas, concluímos que o ego implica em separatividade, em uma realidade fragmentada onde o conflito é inevitável. O espaço individual é delimitado pelo que cada um acha que é “eu” e “meu” e, no convívio mútuo, dificilmente há consenso de qual o comportamento ideal, pois a ideia de respeito é muito subjetiva. Ao ultrapassarem a linha imaginária do “meu espaço”, nos sentimos invadidos e reagimos.

A reatividade é uma resposta condicionada, não necessariamente ao sujeito/objeto em questão, mas àquilo que ele representa. Ele pode significar uma ameaça e o modo que aprendemos a enfrentá-lo ou afastá-lo é pela atitude reativa. Quando reagimos, vemos superficialmente um agressor que fez isso ou aquilo e temos uma atitude condicionada que julgamos como apropriada para lidar com esse tipo de fato. Desconhecemos totalmente a hipótese de sermos responsáveis por essa situação no nível causal e desconhecemos o fato de estarmos fortemente identificados com os pensamentos.

Quando observamos um efeito e não enxergamos a sua causa, nós deduzimos. Elaboramos teorias. Afinal, temos inteligência para isso. Vamos atrás da resposta buscando sinais e, ao final, chegamos a um resultado conclusivo. “Isto é assim!” A partir dessa conclusão, criamos mais deduções, que geram mais conhecimento, até o ponto que nos perdemos da nossa origem. Criamos uma realidade feita de conclusões. É isso o que temos feito ao longo do tempo. Quando operamos a partir de nossas conclusões, projetando-as na realidade, vivemos em estado de ignorância. Vivemos no mundo dos efeitos, presos em nossa lógica, desconsideramos o mundo das causas, da nossa origem. O mundo das causas não pode ser visto pela nossa mente discriminatória. A nossa mente classifica e vê de um modo fragmentado, criando a sua realidade dessa maneira. A realidade causal é imanifesta, não divisível, portanto, impossível de ser vista. E a realidade do ego em um mundo dividido é a realidade que operamos, uma realidade fragmentada e vazia onde a reatividade é um comportamento consolidado.

Estamos perpetuando um hábito ancestral de fragmentação do todo. Essa quebra da nossa ligação consciente com o todo é simbolizada em várias tradições: Adão e Eva comendo do fruto do conhecimento do bem e do mal e sendo expulsos do paraíso, a resistência do receptor à luz da criação gerando o Big Bang, a separação do Céu e da Terra gerando a desintegração de Yin e Yang, a ignorância da lei de causa e efeito gerando a roda do samsara, etc. Tudo envolve dualidade, desintegração e conflito. Quando se começa a pensar individualmente, tem-se o ego e a divisão. É o momento onde deixamos de confiar em uma ordem implícita no universo e passamos a enxergar a realidade a partir dos nossos próprios pensamentos. Se você é o ego, todas as suas ações serão condicionadas e reativas. Seja a causa. A resposta para o problema da reatividade não é tanto o que você faz, mas quem você é.

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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