Encontrando o Eu Real

Encontrando o Eu Real

As respostas para todas as incógnitas de nossa existência não podem estar em outro lugar senão em nós mesmos – assim afirmam os grandes mestres da humanidade. Buscamos incessantemente soluções para as nossas aflições, mas enquanto não compreendemos a nós mesmos, todo o nosso esforço é em vão. E o que acontece na tentativa de olharmos para nós mesmos? Quais os desafios que encontramos diante da busca do despertar, diante da meditação?

Em primeiro lugar, o que significa olhar para si mesmo? Em nossa experiência, é a constatação de que em nossas mentes estão presentes emoções e pensamentos tanto agradáveis como desagradáveis; de que carregamos verdades pessoais e coletivas derivadas do nosso próprio discernimento ou aprendidas de fontes externas. A mente é um gerador de emoções e ideias. Ao seguirmos com essa observação, constatamos que na mente existe uma versão própria da realidade e que dentro dela, está nossa auto-identidade. Aquilo que eu sou, que chamo de eu, está inserido na realidade que a mente apresenta. As emoções e pensamentos fazem parte do fluxo da atividade mental – surgem e cessam apresentando em sua estrutura-base a noção de “eu” envolvido em um contexto, ou seja, uma historinha onde o “eu” é o personagem principal envolvido.

Os pensamentos são, em sua grande parte, esforços para assegurar o bem-estar do personagem “eu”, que está fortemente associado à ideia do “meu” – sejam “minhas” características pessoais, sejam “minhas” posses materiais, seja o “meu” círculo de amigos, parentes, etc. Os pensamentos e emoções servem para assegurar que o “eu” e o “meu” estejam em vantagem diante das circunstâncias da vida, já que diferentes condições podem somar ou diminuir o que é “meu”, podem afetar positivamente ou negativamente o que sou “eu”. O “eu” e o “meu” são instáveis e vulneráveis, por isso desenvolvemos mecanismos instintivos para preservá-los, levando à busca do prazer e à fuga do perigo.

Ok, olhar para si mesmo seria constatar as atividades mentais que se passam nessa criaturinha vulnerável que quer ser feliz e que trava uma batalha existencial para conseguir uma felicidade permanente. Um olhar minucioso revela que essa criaturinha e seus pensamentos não são coisas distintas, mas que o próprio senso de identidade é fruto do pensamento. Então quer dizer que o “eu” não existe independentemente do pensamento? Isso mesmo! Essa versão de “eu” que o pensamento apresenta é o ego e não o “eu” verdadeiro. Tudo aquilo que imagino possuir também é invenção da mente.

Isso pode parecer fictício demais, algo distante da nossa realidade convencional. Mas é isso mesmo: a realidade que conhecemos é convencional, mantida por um conjunto de pressupostos coletivos que aceitamos como absolutos. Uma realidade inventada, que todos concordam e que por isso se torna a norma. Por que é assim? Porque é o que faz sentido para as nossas mentes, para o nosso pensamento, mas, novamente, em essência, não somos o pensamento. Tudo nos leva a crer que somos o pensamento, mas não! O pensamento tem bases em pressupostos concretos guardados em nossas mentes, mas essa versão de realidade opera dentro de um plano imenso de possibilidades que é a nossa consciência.

Na experiência da auto-observação, onde está envolvido o “eu” e o pensamento, o sujeito e o objeto, imersos em uma realidade convencional, podemos avançar e ter a experiência sublime de reconhecer que existe a observação por trás do envolvimento do “eu”. Quando você deixa de se envolver com a versão da realidade apresentada pelo pensamento e deixa de se identificar com essa versão de “eu”, você não é mais o ego, então entra em contato com o “eu” sublime, que não tem forma, que não tem nome, que não tem historinhas. Para mim, este é o sentido verdadeiro de meditação: o contato direto com a fonte, a consciência sem a limitação da mente. Esse estado de consciência permite a autotransformação, uma vez que não se está mais preso aos padrões da mente. Livre de todas as falsas suposições e de todas as imposições de uma realidade inventada, emerge uma nova atitude que se torna a tônica para a formação de uma nova identidade e de um novo corpo.

Que todos possam abandonar a ilusão e atingir a liberação!

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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