Dos espinhos à rosa

Aqui e agora, quão bem você conhece onde está? Seu lar, seu ambiente, sua cidade. Embora sejamos moradores do nosso próprio corpo, quantos somos capazes de observá-lo com atenção plena? Poucos moradores conhecem de fato suas habitações. Em sua própria cidade, é capaz que muitos turistas a conheçam melhor do que o próprio morador. O turista é movido por um olhar curioso e apreciativo sobre o novo. Já, quem está habituado tende a se acomodar, a parar de enxergar a beleza no que lhe é familiar. Seu olhar já está condicionado e gasto. Transforma o simples em simplório e, de certo modo, torna-se mais crítico a tudo que o rodeia, passando a enxergar mais defeitos do que qualidades. Em geral, somos assim.

Nem 100% positivo, nem 100% negativo: tudo tem dos dois, a depender de como olhamos. Não é verdade que quando estamos mal-humorados, as características negativas das pessoas e situações sobressaem? As coisas assumem um peso difícil de suportar e, normalmente, responsabilizamos o outro por isso. Mas afinal, quem se abala somos nós, quem se torna seletivo para a negatividade e reage a elas somos nós; e a culpa é do outro? Falta coerência nessa compreensão.

Nossa grande falha é não percebermos nossa mentalidade dualista. Não que a dualidade seja o problema, mas estarmos inconscientes dela quando a alimentamos é complicado. Somos tendenciosos: utilizamos critérios totalmente subjetivos e pessoais para enxergar à nossa volta e classificar as experiências como boas ou ruins. Se chove, reclamamos da chuva; se alguém faz barulho, xingamos; se a barriga dói, geramos tensão; assim vai…

Temos uma compreensão bastante rasa e egoísta das coisas. Não percebemos o quanto somos parciais e tendenciosos. Tomemos como exemplo o próprio clima chuvoso, o barulho e o desconforto físico. Tudo o que podemos sentir e constatar dentro e fora de nós opera em alternância com seu polo oposto, em plena concordância. Por que julgar, então? Sem a chuva, é provável que nem notaríamos o tempo aberto; sem barulho, não valorizaríamos o silêncio; sem a dor, não perceberíamos o que acontece no próprio corpo. A alternância entre os polos é natural e temporária – não há o que condenar. Problema mesmo seria a fixação em um dos polos, por mais que sejamos favoráveis a ele. Ninguém resistiria à eterna falta de chuva, ao silêncio sem fim ou à ausência de sinais regulatórios do corpo.

Não é inteligente lutar contra a dualidade – é importante entendê-la para compreendermos a nós mesmos e aceitarmos sem resistência a realidade tal como ela é. Isso nos possibilita enxergar o simples com maior apreço e gratidão, sabendo que tudo é transitório e tem o seu tempo para ir embora. As nuvens vão passar e o Sol irá aparecer, mas enquanto isso, podemos apreciar também a chuva. Tudo tem sua beleza natural, mas para podermos valorizá-la, se faz necessário o contraste da dualidade. Como diz o provérbio: se você quer colher rosas, deve aprender a conviver com os espinhos.

Marco Moura

Marco Defensor de Moura
Acupunturista, prof. de Meditação, Tai Chi e Kung Fu
Centro Cultural Tzong Kwan, Vila Mariana, São Paulo

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