O que é Dao?

Ideograma “Dao”.

Dao” (ou “Tao“) significa “caminho”. No sentido comum, imaginamos que o caminho sirva para se chegar a um destino e nada mais. Assim, damos cada passo pensando no final da caminhada, vivemos o dia de hoje pensando no amanhã; e o presente vai sendo abandonado. Essa noção restrita de caminho não é o que consideramos ser o verdadeiro caminho.

Na antiguidade, o sábio Lao Zi utilizou o ideograma 道”Dao” para simbolizar a essência oculta da vida e de toda a existência. Caminho dá a ideia de continuidade, de movimento. Sendo o potencial de criação do universo um caminho infinito, não existe nele um destino adiante – a finalidade do caminho é cada passo, cada momento. Tudo é agora exatamente o que deveria ser. Essa convicção nos assegura a paz.

O Dao, o Taiji, a natureza e o homem

O Dao tem como emanação o Taiji (Tai Chi), que é o princípio de equilíbrio da natureza. O Taiji opera o universo orgânico gerado por ele como uma matriz autorreguladora. Toda a natureza é projetada para entrar em equilíbrio. O Taiji é o eixo oculto que permite que o ritmo se estabeleça na balança da existência, dando origem às leis da natureza de ação e reação, causa e efeito, yin e yang. Devido a esse princípio, há uma alternância contínua entre o dia e a noite, entre as estações do ano, entre a inspiração e a expiração, sístole e diástole, etc. Seguindo esse ritmo pulsante, tudo entra em harmonia.

O homem, sendo emanação da natureza e operado pelo Taiji em conformidade com o Dao, é também um sistema autorregulador. Em essência, o homem é equilíbrio. Seu organismo se adapta às mais diferentes condições quando segue um ritmo natural. Ao se ferir, o tecido se regenera; ao adoecer, o sistema imunológico elimina o parasita; nos diferentes climas, a temperatura do corpo se adapta. Isso porque a nossa natureza está em sintonia com o Dao e há um fluxo constante de ch’i (energia vital) que assegura a nossa capacidade de adaptação.

Porém, não é essa a nossa realidade permanente. Vivemos grande parte do tempo desregulados. Ficamos doentes física e mentalmente, nos sentimos desconfortáveis e buscamos uma saída do estresse a qualquer custo. Por que? O que aconteceu com o nosso sistema autorregulador? Ele se desintegrou.

O homem desregulado

O que nos permite o equilíbrio é a naturalidade. O fluxo do ch’i da natureza em harmonia com o nosso faz com que estejamos em equilíbrio. Quando há um corte nesse fluxo, o ch’i não flui adequadamente e a falta de fluxo vai contra o princípio da vida, que é o constante movimento. A interrupção do fluxo de ch’i leva ao declínio da vitalidade e ao processo degenerativo do corpo e da mente. Frente a situações da vida que exigem de nós uma adaptação natural, não conseguimos dar conta. O fluxo vital é cortado, bloqueado ou agitado por hábitos irregulares, como o sono inadequado, alimentação inapropriada, estudo excessivo, sexo compulsivo, exposição a temperaturas extremas, etc. O maior bloqueio, no entanto, é causado pela mente. A mente tem um poder autodestrutivo muito forte, capaz de gerar pensamentos mais nocivos do que armas.

A mente desconectada do momento presente desagrega ao invés de integrar, portanto desregula energeticamente o fluxo de ch’i. Ela se interpõe na nossa conexão com o Dao. Quando não confiamos no ritmo da vida e tentamos elaborar estratégias mentais para adequar o curso da vida à nossa presunção, vivemos no mundo dos pensamentos e perdemos contato com a realidade. Geramos conceitos, julgamentos e outros devaneios que afirmam à nossa mente que o momento presente é menos importante do que o mundo mental. Querendo ser mais espertos do que a natureza, nós criamos conflitos e interrompemos o fluxo harmônico. Sem essa conexão com o Dao, nos sentimos vazios e incapazes. Procuramos contrabalancear esse vazio com algo externo que nos preencha, o que sempre leva à frustração.

Caminhos para o Dao

Diante dessa angústia, é urgente que nos reconectemos com a energia vital, com a nossa força original que vem da natureza. É necessário encontrar o fluxo do Dao e entrar em sincronia com ele. A prática da meditação é o principal meio de nos sintonizarmos com a essência da vida e abandonarmos o acúmulo de impurezas mentais que cria a insatisfação com o momento presente. O taijiquan (tai chi chuan) é também uma prática destinada a nos integrar ao Dao por meio de exercícios conscientes que representam os movimentos da natureza. Seja por meio da meditação, do tai chi chuan ou de outras práticas integradoras, nós nos harmonizamos conscientemente com o ambiente, com o corpo, com a respiração e com o estado mental – sem julgar e sem conceitualizar. Em contato direto com o presente, nos sentimos bem e relaxados.

Ao abandonarmos a artificialidade e resgatarmos a naturalidade, damos abertura para a sabedoria da vida. Conscientemente e com atenção plena, firmamos a permanência no momento presente em primeiro plano diante das nossas prioridades e nos reconectamos ao Dao.

Marco D. Moura